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11 abril 2013

Profissão Professor


Um em cada quatro professores de física desiste de lecionar, diz estudo

Pesquisa foi feita com egressos da Unesp de Bauru de 1991 a 2008.
Neste ano, 21 instituições oferecerão mestrado a professores da área.

Física (Foto: G1) 
Ana Carolina Moreno Do G1, em São Paulo
Física (Foto: G1)
Uma pesquisa que rastreou a maior parte dos alunos formados no curso de licenciatura do campus de Bauru da Universidade Estadual Paulista (Unesp) entre 1991 e 2008, para descobrir que rumo tomou a carreira deles, mostrou que a maior parte chegou a dar aulas na educação básica, mas um terço deles acabou desistindo da profissão. Segundo Roberto Nardi, professor da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru e orientador do estudo, os números mostram que a falta de professores na rede básica de ensino não é só um resultado da falta de pessoas formadas na área, mas sobretudo das atuais condições de trabalho e salário do cargo.
No período analisado pelo estudo, que foi a dissertação de mestrado do pesquisador Sérgio Rykio Kussuda, 377 pessoas receberam o diploma de licenciatura em física na instituição. Por meio de buscas na internet, o pesquisador conseguiu encontrar 273 desses licenciados, e 52 deles preencheram um extenso questionário a respeito de suas escolhas profissionais.
De acordo com o estudo, dos 40 participantes que disseram ter ingressado na rede de ensino após conquistar o diploma, 13 (25%) decidiram abandonar o trabalho: dez dos 32 licenciados que viraram professores na educação básica acabaram desistindo do emprego para se dedicar a outras áreas, e três dos sete professores que se dedicavam apenas ao ensino superior também mudaram de profissão.
As condições de trabalho não têm sido suficientemente atrativas para os licenciados continuarem no magistério" Sérgio Kussuda, pesquisador da Unesp.
"Os fatores principais que motivaram o abandono dos licenciados do magistério foram, nesta ordem, a questão salarial, as condições desfavoráveis de trabalho neste nível de ensino, particularmente no magistério público, e a consequente opção por outras profissões de caráter público ou privado, destacandose o ingresso em programas de pós-graduação que permitem o acesso ao magistério no ensino Superior e empregos em empresas de projeção nacional, públicas e privadas", conclui a pesquisa.
Entre os que abandonaram a carreira para a qual se formaram --lecionar--, muitos decidiram fazer uma nova graduação, que incluiu, entre outras, direito, engenharia, matemática, pedagogia e logística.
Já os licenciados que nunca chegaram a lecionar, há os que se tornaram funcionários públicos, bancários, empregados do setor administrativo e até um técnico em meteorologia. Dos 52 participantes da pesquisa, 27 ainda atuam como professores, e apenas 16, ou 30% do total, trabalham na rede básica de ensino.
Segundo Kussuda, "as condições de trabalho não têm sido suficientemente atrativas para os licenciados continuarem no magistério".
O pesquisador, que concluiu a licenciatura em física em 2009, também é professor do ensino médio na rede pública estadual de Bauru, e conta que, embora "nenhum curso prepara o professor 100% para a sala de aula", boa parte do conteúdo do currículo da licenciatura "está mais para o bacharelado".
Mesmo assim, ele ressalta que o currículo tem recebido melhorias ao longo do tempo. "Com certeza tivemos mais contato com a realidade de sala de aula que os licenciados anteriores", afirmou Kussuda em relação aos seus colegas que, como ele, iniciaram o curso em 2006.
A evasão de licenciados faz com que a cidade de Bauru, que, além da Unesp, tem
Técnicas de ensino
Entre as dificuldades citadas pelo professor Roberto Nardi estão o volume de horas de trabalho em salas de aula cheias e com alunos com defasagem em aprendizados básicos, além da falta de preparação dos licenciados em transpor o conhecimento dos conteúdos da física adquiridos na faculdade para o nível dos estudantes do ensino básico.
Ele afirma que os alunos do curso de licenciatura só recentemente passaram a ter disciplinas específicas sobre ensino, incluindo estágios e outras práticas. Antes, a maior parte da carga horária do curso era ministrada por bachareis em física que transmitiam o conhecimento da matéria, mas não as técnicas sobre como ensinar esses conceitos a adolescentes.
Nardi, que mantém um grupo de pesquisa em ensino de ciências na faculdade da Unesp, em Bauru, afirma que há estudos mostrando como as crianças e adolescentes chegam às aulas de ciências com conceitos aprendidos espontaneamente do senso comum, como noções de velocidade, que nem sempre são corretos do ponto de vista científico.
Desmontar esses conhecimentos é um dos desafios que podem pegar os professores desprevenidos. Veja abaixo alguns depoimentos de licenciados em física sobre suas experiências nas salas de aula da educação básica.

O QUE DISSERAM PROFESSORES DE FÍSICA ENTREVISTADOS NA PESQUISA
"Após formado, ainda não consegui uma regularidade no número de aulas ministradas, devido à falta de vínculos empregatícios das escolas. Em sua grande maioria, não utilizam as normas CLT vigentes, pagando apenas as aulas ministradas por semana, não pagando se ficarmos doentes, férias."

"Os alunos não têm interesse nenhum por física e não há o que os faça se interessar pelo conteúdo, além do salário ser péssimo e o ambiente de trabalho lotado de professores que perderam totalmente o estímulo por lecionar."

"Muitos colegas (professores) em escolas públicas não suportaram a pressão e desistiram da docência. Uma das causas é a falta de limites (educação) dos alunos, violência, e salário abaixo dos profissionais liberais."

"Por mais que eu fizesse experimentos, o conteúdo nunca é completamente cumprido na escola pública, pois os alunos não sabem matemática básica para compreender física, então primeiro você ensina matemática e depois vai para física. E com apenas duas aulas por semana não se faz milagre. E aí você fica frustrado."

"No momento, o que me mantém na profissão é falta de perspectiva. Licenciado em física, não tenho outra opção. Estou procurando outras opções e especializações que me dêem opção de escolha na hora de trabalhar."
Fonte: "A escolha profissional de licenciados em física de uma universidade pública" (Unesp/2012)

Um terço desistiu por causa do salário
"Outra questão é salarial, que é crucial", explicou o professor, que citou os valores atrativos que os graduados em física podem ter em bolsas de pesquisa de mestrado e doutorado, que são mais altos que o valor pago pela hora de aula atualmente.
De acordo com a pesquisa, dos dez professores que ingressaram na educação básica, mas desistiram de lecionar, quatro optaram por seguir na área acadêmica fazendo pós-graduação e cinco afirmaram que desistiram por questões financeiras.
A desistência afetou tanto professores da rede pública quanto da privada. Se por um lado eles afirmam que o interesse dos estudantes de escolas particulares é maior, por outro, a falta de autonomia e a necessidade de acatar o que diretores, alunos e pais querem atrapalham o andamento das aulas.
"Ministrar aulas é um dom, uma vontade. Gosto muito de dar aulas, porém, o sistema complica muito as coisas", afirmou um professor que participou do estudo.
Mestrado profissional
O estudo mostrou ainda que mais da metade dos licenciados de física entrevistados afirmou que, além de física, também deu aula de outras disciplinas. Matemática e química foram as mais citadas, mas matérias como história e geografia também apareceram no questionário, mesmo que um professor com licenciatura em física não possa dar aulas de disciplinas de ciências humanas.
O contrário também é comum, segundo Celso Pinto de Melo, presidente da Sociedade Brasileira de Física (SBF). Pensando em suprir a falta de capacitação de professores que dão aula de física, mas não têm licenciatura na área, a SBF capitaneou, durante o ano passado, a elaboração de um programa de mestrado profissional em física.
"Precisamos aumentar o número de professores de física no ensino médio e a qualificação desses professores"
Celso Pinto de Melo, presidente da
Sociedade Brasileira de Física
"Precisamos aumentar o número de professores de física no ensino médio e a qualificação desses professores. Uma fração expressiva não é graduada em física, há vários estudos por parte do Inep e MEC mostrando enorme déficit de professores em geral, matemática, química e física", explicou o presidente da entidade.
Neste ano, 18 universidades federais e três estaduais foram selecionadas para as primeiras turmas do programa no Distrito Federal e nos estados de Amazonas, Bahia, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rondônia, São Paulo e Sergipe.
"Existe uma coordenação nacional que estabelece os módulos de conteúdo. Cada pólo vai poder fazer alguma adaptação às características locais, mas não são programas avulsos", explicou Melo.
O público-alvo, segundo ele, são professores que já atuam no ensino médio. Para que eles não precisem abandonar o cargo durante o curso presencial, os mestrandos receberão uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), afirma Melo. Ele explica que o objetivo do curso é ensinar o conteúdo de física a professores que não são formados na área, mas acabam atuando nela. "O conteúdo é algo importante, sem perda das disciplinas da área pedagógica. Mas não é um programa voltado pra área de pedagogia."
A medida, de acordo com Melo, tenta melhorar as condições de trabalho dos professores, mas não é capaz de resolver, sozinha, o problema da falta de docentes nas escolas brasileiras. "Tem a ver com a valorização social da carreira do professor. Enquanto o piso mínimo não for uma realidade, enquanto não houver reconhecimento social... Esse programa não é uma varinha de condão."